Por enquanto a IA não vai tomar o seu emprego. Mas vai mudar tudo que vale nele.
Uma pesquisa sobre o que o SXSW vem discutindo nos últimos três anos revela algo que a área de People ainda não assimilou completamente e que muda bastante o nosso trabalho.
Por Gustavo Melles · 2026-04-09
Nos últimos anos, acompanhei de perto uma transformação que não é sobre tecnologia: é sobre como as pessoas pensam, como as equipes funcionam e como as lideranças se posicionam diante de algo que ainda não entendem completamente.
A inteligência artificial chegou nas organizações de forma barulhenta. Mas o maior ruído não vem das ferramentas. Vem da confusão sobre o que fazer com elas e do medo silencioso de quem não sabe o que isso significa para o seu lugar no mundo do trabalho.
É sobre isso que quero conversar. Não como especialista em tecnologia, mas como alguém que acredita que o papel da área de People, agora mais do que nunca, é ajudar as pessoas a pensarem melhor, e não apenas mais rápido.
Pensar com IA não é uma habilidade técnica. É uma postura. E cultivar essa postura nas organizações é, hoje, um diferencial competitivo real.
01. A IA não veio para fazer o seu trabalho. Veio para mudar o que vale nele.
Existe uma crença muito difundida de que a inteligência artificial vai tomar empregos. E ela não está completamente errada. Mas o que essa narrativa esconde é muito mais importante: a IA não substitui o trabalho humano de forma linear. Ela desloca o valor dele.
Durante anos, o mercado recompensou velocidade de execução. Quantas páginas você escreve, quantas análises você entrega, quantas tarefas finaliza em um dia. Esse modelo foi o centro da avaliação de desempenho em quase todas as indústrias.
Hoje, quando uma ferramenta de IA gera em segundos um relatório que levaria horas e às vezes faz isso melhor a pergunta inevitável surge: o que exatamente sobra para o humano fazer?
A resposta que me convence é esta: sobra o que a máquina não consegue fazer. E o que ela não consegue fazer é pensar no problema certo.
Isso pode parecer simples. Não é. Identificar qual problema realmente vale a pena resolver exige experiência acumulada, senso de contexto, capacidade de ouvir o que não está sendo dito, intuição construída ao longo de anos. É um trabalho profundamente humano e é exatamente ele que está se tornando mais escasso e mais valioso.
O SXSW 2026 trouxe isso com clareza no painel "Humans at the Helm: Culture Change in the Era of AI", com David Hanrahan, SVP de People da SolarWinds. A virada de chave: quando a IA absorve a execução, o diferencial humano passa a ser a qualidade da pergunta, não a velocidade da resposta.
Uma das lideranças mais citadas nesses ambientes disse algo que ficou comigo: "Eu parei de pedir soluções. Comecei a exigir problemas bem definidos."
Para as equipes de People, a implicação é direta: precisamos parar de treinar pessoas para executar mais rápido e começar a desenvolver a capacidade delas de pensar com mais profundidade. São habilidades diferentes. E a segunda está sendo sistematicamente negligenciada.
02. O risco que ninguém quer nomear: a preguiça cognitiva
Existe um efeito colateral silencioso na adoção rápida e irrefletida de ferramentas de IA. Chamo de preguiça cognitiva e ele me preocupa mais do que qualquer cenário de substituição de empregos.
Quando tudo fica mais fácil, a tendência humana é usar menos esforço. Isso é biológico, não é falha de caráter. Mas no contexto do trabalho intelectual, o risco é concreto: se a IA sempre produz o primeiro rascunho, a análise inicial, a estrutura do argumento o que acontece com a nossa capacidade de fazê-los quando ela não está disponível?
E mais: o que acontece com a nossa capacidade de julgamento de saber se o que a IA produziu é bom, relevante, ético, verdadeiro se nunca exercitamos o músculo que faz esse julgamento?
A IA como oráculo é perigosa. A IA como parceiro de pensamento é transformadora. A diferença está em como o ser humano decide usá-la.
Nos melhores usos que observei, as pessoas não usam a IA para substituir o raciocínio. Usam para testá-lo. Chegam com uma hipótese, pedem para a ferramenta questionar, exploram os pontos cegos, revisitam os pressupostos. Isso é pensar com IA não pensar através dela. É o que chamo de Inteligência Ampliada: a soma do que o humano sabe com o que a IA processa, guiada pela direção que só o humano pode dar.
Se esse risco é real e acredito que é então a área de People tem uma responsabilidade que ainda não estamos cumprindo plenamente: criar culturas onde o pensamento ainda tem status.
Isso significa redesenhar reuniões para incluir momentos de síntese sem apoio de ferramenta. Criar espaços onde questionar a solução proposta pela IA é encorajado, não visto como resistência. Reconhecer e promover quem faz boas perguntas e não apenas quem entrega outputs rápidos.
📊 Dado que vale atenção: Segundo o SHRM Talent Trends 2025, 66% das organizações que já adotam IA a utilizam para gerar descrições de vagas e 44% para triagem de currículos. Isso levanta uma pergunta incômoda: se a triagem inicial é feita pela máquina, qual é o nível de profundidade do julgamento humano que acontece depois? Estamos delegando a execução ou o critério?
03. As habilidades que a IA não replica
Muito se fala sobre habilidades técnicas para o profissional do futuro. Mas o que os dados mostram é que as habilidades mais escassas não são as técnicas. São as humanas não porque sejam soft, mas porque são as mais difíceis de desenvolver e as mais difíceis de escalar com código.
Definição de problemas. Identificar o que realmente está errado, antes de buscar soluções, é uma habilidade sofisticada. Exige tolerar ambiguidade, questionar o óbvio e resistir à pressão por respostas rápidas. A IA pode organizar dados e hipóteses mas quem decide qual problema merece atenção é o humano. Sempre.
Inteligência emocional. A pesquisadora Rana el Kaliouby mostrou no SXSW 2026 que aproximadamente 93% da comunicação humana é não-verbal. Ferramentas de IA, mesmo as mais sofisticadas, leem apenas os 7% explícitos. Toda a dimensão de leitura emocional, percepção de clima, empatia ativa continua sendo domínio exclusivamente humano. Não por enquanto. Para sempre.
Ética situada. Tomar decisões que considerem impacto real em pessoas reais, em contextos específicos, com consequências que vão além dos dados disponíveis: a IA pode apontar inconsistências e simular cenários, mas o julgamento moral é humano. Nas equipes de People, esse julgamento é exercido o tempo todo muitas vezes sem perceber.
Adaptabilidade cognitiva. A meia-vida das habilidades técnicas está encolhendo de forma acelerada. O que diferencia quem prospera não é o que sabe hoje, mas a velocidade com que reaprendem amanhã. Isso não se aprende em um curso. É uma disposição que se cultiva com prática deliberada e uma cultura que valorize tentativa, erro e iteração.
Presença e conexão. Scott Galloway e a cientista social Kasley Killam nomearam em 2025 o que está se tornando uma crise silenciosa nas organizações: a solidão. Com modelos híbridos e comunicação mediada por tecnologia, os vínculos humanos genuínos estão enfraquecendo. E são eles que sustentam confiança, colaboração e inovação. A saúde social do time precisa virar pauta estratégica não um item de agenda de bem-estar.
04. O que aprendi olhando para quem está fazendo bem
Não gosto de receitas. Mas aprendo muito com exemplos concretos.
Democratizar antes de centralizar. O Portland Trail Blazers reduziu em 30% os custos de contratação ao democratizar o acesso a ferramentas de IA não ao automatizar tudo a partir de um centro de TI. Ensinaram equipes não-técnicas a construir suas próprias soluções para problemas locais. Resultado: a inovação virou um comportamento distribuído, não um processo centralizado. Para equipes de People, empoderar as pessoas a experimentar com tecnologia é mais poderoso e mais duradouro do que criar políticas sobre como usá-la.
Dar nome ao que parece ameaçador. Quando a IA deixa de ser uma entidade abstrata e passa a ter um nome e uma função específica dentro da cultura da empresa, ela é integrada de forma mais natural. As pessoas param de resistir e começam a colaborar. Isso não é ingenuidade é design comportamental aplicado à gestão da mudança.
Investir no momento mais vulnerável. A Yuzi Care, vencedora do SXSW Pitch 2026 na categoria Enterprise and Future of Work, é uma plataforma que usa IA para criar redes de suporte para mães e famílias no pós-parto. Não resolve um problema de produtividade imediata. Resolve um problema de vida real e, ao fazer isso, cria um vínculo de lealdade profunda. A mensagem para os times de People é direta: o futuro dos benefícios corporativos não é estático, genérico ou financeiro. É dinâmico, personalizado e centrado nos momentos que realmente importam.
💡 O conceito do "Time de Um Bilhão": Ian Beacraft, CEO da Signal and Cipher, apresentou no SXSW 2024 a ideia de que um grupo pequeno, altamente integrado com IA, pode gerar o output que antes exigia centenas de pessoas. Para as equipes de People, isso muda a pergunta central: não mais "quantas pessoas precisamos?" mas sim "qual é a capacidade cognitiva que precisamos construir?"
05. O que muda para a área de People
Se o trabalho está se transformando, a área responsável pelas pessoas que fazem esse trabalho precisa se transformar também. Com uma diferença importante: precisamos estar à frente, não apenas acompanhando.
Algumas mudanças que considero não-negociáveis:
- Contratar por capacidade de aprendizado, não por currículo. A meia-vida das habilidades está encolhendo. O que alguém sabe hoje importa menos do que a velocidade com que aprende amanhã.
- Redesenhar ciclos de desempenho para avaliar profundidade, não só velocidade. Quem faz as melhores perguntas precisa ser reconhecido tanto quanto quem entrega o maior volume.
- Criar ambientes psicologicamente seguros para experimentação com IA. As pessoas precisam poder errar, testar e questionar sem medo de julgamento. Sem isso, a adoção vira performance não transformação.
- Elevar a saúde social a uma prioridade estratégica. Vínculos humanos genuínos são o diferencial competitivo que a IA jamais vai replicar.
- Auditar as ferramentas de IA utilizadas na gestão de pessoas para verificar viés. Algoritmos refletem os dados com que foram treinados e os dados históricos carregam as desigualdades históricas. Delegar a triagem de talentos para um modelo enviesado é terceirizar a injustiça.
- Desenvolver lideranças que saibam orquestrar a IA, não apenas usá-la. O líder que usa IA como oráculo forma times que fazem o mesmo. O líder que age como um maestro da IA definindo direção, questionando outputs, calibrando o uso forma times que pensam. Essa distinção vai separar as organizações que crescem das que apenas produzem.
Para encerrar: o que não muda
Ao longo de tudo que li, ouvi e experienciei sobre inteligência artificial e o futuro do trabalho, uma coisa ficou cada vez mais clara: o que mais importa não mudou.
Pessoas precisam sentir que seu trabalho tem sentido. Que são vistas como indivíduos, não como recursos. Que fazem parte de algo maior. Que têm espaço para crescer, errar e se reinventar.
A IA não muda essa necessidade. Ela amplifica a responsabilidade de quem cuida das pessoas nas organizações porque quando a tecnologia absorve o trabalho transacional, o que sobra é exatamente o que é mais humano.
O nosso papel em People nunca foi tanto sobre processos. Sempre foi sobre conexão. A IA nos libera para fazer isso com mais profundidade se tivermos a clareza de escolher esse caminho.
Como este artigo foi construído
Usei o Claude (Anthropic) para fazer uma pesquisa estruturada sobre o que foi discutido no SXSW entre 2024 e 2026 sobre IA, trabalho e pessoas. Esse levantamento formou o esqueleto do que você leu. A partir daí, eu entrei: trouxe minha perspectiva, minhas dúvidas, os pontos que me incomodam, os exemplos que me marcaram. Escrevi junto com a ferramenta revisando, questionando, redirecionando.
Faço questão de ser transparente sobre isso porque acredito que usar IA de forma honesta e assumida é exatamente o comportamento que quero encorajar nas pessoas com quem trabalho. Não usar como muleta, não esconder como se fosse trapaça mas integrar como um processo real de pensamento e criação.
Esse artigo é meu. E também é construído com IA. As duas coisas são verdade ao mesmo tempo.
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