Quando o asfalto fica liso demais
Hoje o Bruno tem 15 anos. Quando ele tiver 47, a mesma idade que eu tenho hoje, estaremos em 2058. Talvez viver seja muito mais fácil. E é justamente isso que me preocupa.
Por Gustavo Melles · 2026-09-13
Hoje o Bruno tem 15 anos.
Daqui a 32 anos, ele terá 47.
Exatamente a idade que eu tenho enquanto escrevo este texto.
Só essa conta já mexeu comigo.
Mas tem uma coisa ainda mais maluca: este texto nasceu de uma conversa que eu tive com uma inteligência artificial.
Eu estava conversando com a BIA sobre como seria a vida do Bruno aos 47 anos.
Conversando.
Não pesquisando no Google. Não digitando palavras-chave. Não abrindo dez abas.
Conversando com uma inteligência artificial como quem conversa com alguém sentado do outro lado da mesa.
E, no meio da conversa, eu percebi:
nós estamos tentando imaginar o futuro usando uma tecnologia que, poucos anos atrás, já seria considerada o próprio futuro.
Isso é bizarro.
E maravilhoso.
E talvez um pouco assustador também.
2058
Tente imaginar.
Quando o Bruno tiver a minha idade, inteligência artificial provavelmente não será mais uma ferramenta.
Será ambiente.
Ela estará na casa, no trabalho, no carro, na saúde, na educação, nas decisões, nos relacionamentos, nas empresas.
Hoje a gente ainda abre um ChatGPT.
Em 2058, talvez essa frase nem faça sentido.
A inteligência provavelmente estará espalhada por tudo.
E não vamos mais pedir:
“Faça isso para mim.”
Os sistemas provavelmente vão entender contexto, antecipar necessidades, executar, negociar, pesquisar, organizar, comprar, programar, criar.
Hoje já estamos começando a sair da IA que responde para a IA que executa.
Imagine isso depois de mais três décadas.
O Bruno provavelmente terá acesso a capacidades que hoje parecem ficção científica.
E isso deveria me deixar apenas feliz.
Mas não deixou.
Porque no meio da conversa surgiu uma imagem na minha cabeça.
Uma estrada.
Nós viemos pela estrada de terra
A nossa geração pegou muita estrada de terra.
E não estou falando literalmente.
Falo daquele caminho cheio de buraco, poeira, incerteza, erro, espera e improviso.
Para descobrir alguma coisa, às vezes era preciso procurar.
Para aprender, demorava.
Para falar com alguém, nem sempre dava.
Para construir alguma coisa, faltava ferramenta.
Para começar um projeto, faltava dinheiro.
Para encontrar uma resposta, muitas vezes era preciso quebrar a cabeça.
Era pior?
Em vários aspectos, claro que era.
Eu não tenho nenhuma nostalgia romântica da dificuldade.
Não acho que sofrer torna alguém melhor automaticamente.
Não acho que devemos dificultar a vida dos nossos filhos para “eles aprenderem”.
Seria absurdo.
O problema é outro.
Olhando para trás, percebo que uma parte importante daquilo que somos não nasceu apesar dos buracos.
Nasceu também por causa deles.
A gente aprendeu a esperar.
A improvisar.
A insistir.
A se frustrar.
A tentar de novo.
A mudar de caminho.
A desejar algo por muito tempo antes de conseguir.
A descobrir que nem tudo acontece na hora que queremos.
Essas experiências foram colocando alguma coisa dentro da nossa mochila.
Uma espécie de repertório emocional da estrada de terra.
E se o mundo do Bruno for asfaltado demais?
Foi aí que a conversa começou a me incomodar.
Talvez a geração do Bruno viva em um mundo muito mais asfaltado.
E isso é ótimo.
O asfalto existe por um motivo.
Ele diminui acidentes, encurta caminhos, economiza tempo, melhora a vida.
Tecnologia faz exatamente isso.
Eu passei os últimos anos defendendo que a inteligência artificial pode ampliar nossa capacidade humana.
Continuo acreditando profundamente nisso.
Pense com IA. Pense com Inteligência Ampliada.
Não quero voltar para trás.
A questão é:
o que acontece quando asfaltamos tanto o caminho que quase não precisamos mais caminhar?
Essa pergunta é muito diferente.
Porque talvez o maior risco da inteligência artificial não seja substituir pessoas.
Talvez seja retirar de nós alguns pequenos atritos que, sem percebermos, ajudavam a nos construir.
Atrito também ensina
Hoje já fazemos isso.
Não sabemos escrever uma frase? IA.
Não sabemos por onde começar um trabalho? IA.
Queremos criar uma apresentação? IA.
Queremos pesquisar? IA.
Programar? IA.
Planejar uma viagem? IA.
Comparar uma decisão? IA.
Eu mesmo faço isso todos os dias.
E acho fantástico.
Mas existe uma fronteira muito interessante aqui.
Porque eficiência e formação humana não são exatamente a mesma coisa.
Se uma criança nunca precisar se perder, como ela aprende a se encontrar?
Se nunca precisar esperar, como aprende paciência?
Se uma resposta estiver sempre disponível, como desenvolve curiosidade suficiente para permanecer dentro de uma pergunta?
Se todo primeiro rascunho vier pronto, como aprende a enfrentar a folha em branco?
Não tenho respostas.
Tenho perguntas.
E talvez sejam justamente essas perguntas que a nossa geração precise fazer agora.
Nós não escolhemos todas as estradas de terra
Durante nossa conversa, eu disse algo para a BIA:
a gente não escolhe os atritos.
Eles aparecem.
Essa talvez seja a parte mais importante dessa reflexão.
A vida nunca será completamente asfaltada.
Por mais tecnologia que exista.
Você não automatiza completamente um casamento.
Não terceiriza para uma IA a experiência de criar um filho.
Não existe algoritmo que elimine perda.
Não existe agente autônomo que possa sofrer uma decepção no seu lugar.
Uma IA pode ajudar você a analisar uma decisão.
Mas alguém ainda precisará viver as consequências dela.
Pode ajudar a entender uma doença.
Mas alguém ainda sentirá medo.
Pode melhorar sua produtividade.
Mas não pode escolher, definitivamente, o que faz a sua vida valer a pena.
Sempre haverá estrada de terra.
Minha dúvida é outra:
quando ela aparecer, estaremos preparados para ela?
A primeira estrada de terra
Talvez esse seja um paradoxo da geração pós-IA.
Quanto melhor a tecnologia ficar em eliminar pequenos desconfortos, maior pode parecer o desconforto que ela não consegue eliminar.
Para quem passou a vida inteira dirigindo em estrada de terra, um buraco faz parte do caminho.
Para quem só conhece asfalto perfeito, talvez o primeiro buraco pareça o fim da estrada.
E foi aí que pensei no Bruno.
Quando ele tiver 47 anos, eu não quero que ele tenha tido uma vida difícil.
Muito pelo contrário.
Quero que ele tenha acesso a toda tecnologia capaz de ampliar sua saúde, inteligência, liberdade e possibilidades.
Quero que a inteligência artificial faça por ele coisas que eu jamais tive a oportunidade de ter feitas por mim.
Mas também espero que, no meio de toda essa abundância, ele não perca uma coisa:
a capacidade de continuar quando o GPS não souber o caminho.
Talvez o luxo seja outro
Durante muito tempo, luxo significou ter coisas.
Depois passou a significar ter acesso.
Talvez, no futuro, luxo seja ter autonomia.
Num mundo em que uma inteligência artificial poderá fazer quase tudo por você, talvez exista um enorme valor em ainda querer fazer algumas coisas sozinho.
Cozinhar.
Escrever.
Construir.
Aprender algo difícil.
Errar.
Tentar novamente.
Ficar alguns minutos sem uma resposta.
Talvez até se perder um pouco.
Não porque seja mais eficiente.
Mas porque somos humanos.
E existe uma diferença enorme entre chegar a algum lugar e ter vivido o caminho até lá.
A estrada que eu desejo para o Bruno
Não quero colocar pedras no caminho do meu filho.
A vida fará isso sem pedir minha autorização.
Também não quero que ele rejeite tecnologia em nome de uma suposta pureza humana.
Seria negar o mundo em que ele viverá.
Quero exatamente o contrário.
Quero que ele use tudo.
IA, agentes, robôs, biotecnologia, sistemas que ainda nem conseguimos imaginar.
Quero que seja ampliado por tudo isso.
Mas espero ter conseguido ensinar uma coisa antes de 2058:
nem toda estrada de terra precisa ser asfaltada.
Algumas precisam ser atravessadas.
Porque às vezes é na poeira, no buraco, na curva que não estava no mapa e naquele momento em que você pensa em voltar que alguma coisa acontece.
Não necessariamente no mundo.
Mas dentro da gente.
Hoje o Bruno tem 15 anos.
Quando ele tiver 47, terá a idade que eu tenho agora.
Eu não faço ideia de como será o mundo dele.
Mas talvez essa seja uma das coisas bonitas de ser pai:
eu não preciso preparar o caminho inteiro.
Preciso tentar preparar o Bruno.
Porque o asfalto provavelmente será cada vez melhor.
Mas espero que ele nunca tenha medo da estrada de terra.
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